Onde abrir um restaurante quando o melhor ponto não é o mais óbvio

A estratégia de canais que levou o Rei do Mate a mais de cem lojas fora do shopping tradicional.

Por Redação Goomer 21 de Julho de 2026 - Atualizado em 21 de Julho de 2026 11 min. de leitura
Cliente com mochila e mala de rodinhas usa um tablet de autoatendimento no balcão de uma lanchonete de aeroporto. Uma atendente de avental escuro segura uma embalagem de comida ao lado dele, enquanto aviões e painéis de voo aparecem ao fundo através das janelas.

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Tem uma cena que todo mundo do varejo de alimentação conhece: a disputa por um ponto no shopping. Três marcas atrás do mesmo corredor, o mesmo aluguel caro, a mesma briga por fluxo. Enquanto isso, do outro lado da cidade, tem um café servindo gente no corredor de uma loja de material de construção, e ninguém está brigando por aquele espaço com ele.

Esse contraste resume a estratégia que ajudou a transformar uma casa de mate em uma das maiores redes de cafeteria do país. A tese é simples e contraintuitiva: o melhor ponto para crescer nem sempre é o mais movimentado. É aquele onde o seu cliente já está, por outro motivo, e a concorrência ainda não chegou. Onde abrir um restaurante deixa de ser uma disputa por metro quadrado caro e vira uma leitura de onde existe fluxo qualificado sem briga.

Foi assim que boa parte da expansão do Rei do Mate aconteceu, como contou João Baptista, diretor de franquias e expansão da rede, no Ingrediente Certo, o podcast da Goomer. Os números que ele cita ao longo da conversa ajudam a entender o tamanho da aposta.

A operação que não cabia nos pontos óbvios

No começo, a marca carregava uma limitação que parecia uma força. Ela era tão associada a um único produto que, quando tentava entrar nos pontos tradicionais, esbarrava numa objeção repetida. No hipermercado, a resposta era sempre a mesma: já tem quem venda café aqui, já tem quem venda pão de queijo. O ponto óbvio estava ocupado, e a marca chegava atrasada para uma disputa já tomada.

Havia duas saídas. A primeira era brigar de frente por esses espaços, gastando energia e verba para convencer cada empreendimento de que cabia mais um café ali. A segunda era parar de insistir na porta fechada e procurar onde o mesmo cliente estava, mas a marca ainda não. A rede escolheu a segunda, e essa decisão mudou o desenho inteiro da expansão.

O raciocínio por trás era comercial, não teimosia. Sem a tradição e o reconhecimento que viriam com os anos, brigar pelo ponto óbvio custava caro e rendia pouco. Ir para onde ninguém disputava custava menos e entregava um cliente que já estava ali, com tempo e disposição para consumir. O ponto não óbvio não era o plano B; era o plano mais inteligente para aquele momento da marca.

A virada: ir aonde o cliente está e a concorrência não

A mudança de chave foi deixar de perguntar qual é o ponto mais movimentado e passar a perguntar onde está o meu cliente com tempo para me consumir. Essa pergunta abre um mapa completamente diferente. Ela tira o foco do corredor mais caro do shopping e o coloca em lugares onde já existe fluxo de gente parada, esperando, circulando, mas sem uma boa opção de consumo à mão.

No episódio, João Baptista descreve exatamente esse movimento de procurar o espaço que a concorrência ignorava:

A gente teve que começar a buscar outras oportunidades onde o consumidor estava, e era justamente aonde os outros não estavam disputando.

O detalhe que torna a estratégia defensável é que esses lugares já tinham serviço de alimentação, mas quase sempre sem marca e sem proposta de valor. Existia uma cantina, um balcão genérico, algo que apenas vendia um produto para quem estava por ali. Chegar com uma marca reconhecível, um padrão de produto e um serviço cuidado transformava aquele consumo indiferente em uma experiência associada a alguém. O cliente deixava de comprar um café qualquer e passava a escolher uma marca.

Por que o momento de consumo importa mais que o metro quadrado

O que faz esses canais funcionarem não é o tamanho do fluxo, é o tipo de momento em que o cliente está. Cada ambiente cria uma janela de consumo específica, e é essa janela, não o metro quadrado, que define se o ponto vende.

A loja dentro da loja

No modelo store-in-store, uma loja opera dentro de outra maior, como um café dentro de uma grande loja de material de construção ou de artigos esportivos. O motivo de existir é o comportamento de quem está ali: essa não é uma compra de entra e sai. A pessoa vai com a família, percorre corredores, demora, cansa. Uma pausa para um café no meio do trajeto não compete com nada dentro daquele espaço, e atende exatamente a quem precisa de um respiro para continuar comprando. O fluxo já estava lá; faltava a opção certa no momento certo.

O canal mais exigente: o hospital

O hospital é o exemplo de que fluxo qualificado vem com responsabilidade. Ali o cliente está fragilizado, muitas vezes acompanhando alguém doente, e avalia o serviço por uma régua muito mais dura. No shopping, um erro de atendimento se dilui. No hospital, qualquer falha vira conflito imediato, com exigência de padrão sanitário e de nível de serviço. É um canal de alto potencial que só se sustenta com um operador focado na gestão daquele ponto, e não com alguém que apenas abriu mais uma unidade. A exigência do canal filtra quem consegue operá-lo bem.

O aeroporto, o clube e a faculdade

A mesma lógica vale para aeroportos, terminais rodoviários, clubes, faculdades e operações dentro de indústrias. No aeroporto, o cliente chega com tempo de espera e pouca opção à mão; no clube e na faculdade, ele passa horas no mesmo lugar e consome em vários momentos do dia. Em todos, o denominador comum se repete: existe gente parada ou circulando, com uma janela de consumo clara, e faltava uma marca que ocupasse aquele momento com um padrão consistente. Cada um desses ambientes é um público cativo esperando por uma boa opção, não um ponto que você precisa encher de gente.

Perguntas para avaliar um ponto não óbvio

  • Que momento de consumo esse lugar cria, e ele combina com o seu produto?
  • O seu cliente já está ali por outro motivo, com tempo e disposição para consumir?
  • A concorrência está disputando esse espaço ou ninguém olhou para ele ainda?
  • O canal exige um nível de serviço que a sua operação consegue entregar com consistência?
  • Você tem um operador comprometido com a gestão daquele ponto, e não apenas alguém abrindo unidades?

O que o ponto não óbvio exige da operação

A contrapartida da menor disputa é a maior régua. Quanto mais específico o canal, mais ele cobra em nível de serviço, e o que separa quem lucra nesses espaços de quem se machuca neles quase nunca é o ponto: é o operador. Um canal exigente não perdoa dono ausente. Ele pede alguém comprometido com a gestão daquela unidade, presente no dia a dia, capaz de sustentar o padrão de higiene, de atendimento e de velocidade que aquele ambiente exige.

Há ainda uma camada operacional que muitos desses canais compartilham. Corredor de loja, aeroporto e grab and go vivem de consumo rápido, em que o cliente tem pouco tempo e a fila é inimiga. Nesses formatos, pedido e pagamento ágeis não são conforto, são parte da proposta de valor. Soluções de autoatendimento ajudam a sustentar esse ritmo, reduzindo fila e erro de pedido justamente onde o tempo do cliente é curto e a primeira impressão decide se ele volta.

Não é exagero dizer que, nesses canais, a operação é parte do ponto. Um aeroporto com fila longa desperdiça o fluxo que ele mesmo oferece; um corredor de loja com atendimento lento perde o cliente que só tinha aquela janela curta. Escolher bem o ponto e não preparar a operação para o ritmo dele é ganhar o jogo no mapa e perder no balcão.

O que mudou depois

A ocupação dos canais não óbvios teve um efeito que não estava no plano inicial. Ao ganhar presença e relevância nesses espaços, a marca construiu um reconhecimento que, mais tarde, destravou justamente os pontos tradicionais que antes a barravam. Os mesmos empreendimentos que diziam já ter café passaram a querer a marca, agora que ela chegava com tradição e força. O caminho pela periferia dos pontos óbvios acabou abrindo a porta do centro.

Segundo os números que João Baptista cita no episódio, a rede chegou a mais de cem lojas fora do shopping tradicional, com mais de sessenta unidades em hospitais e dezenas em modelos de loja dentro de loja, ao lado das cerca de cento e trinta lojas de shopping. O ponto de rua, que já foi a maioria absoluta no início, virou fatia pequena. A diversificação de canais deixou de ser tática de contorno e virou a espinha dorsal do crescimento.

Esse é o ponto que costuma passar despercebido em quem olha a rede de fora. O crescimento não veio de vencer a disputa pelos melhores endereços, e sim de recusar essa disputa e criar valor onde ela não existia. Cada canal não óbvio ocupado cedo virou uma barreira difícil de copiar, porque a marca chegou primeiro e construiu relação com um público que a concorrência sequer estava enxergando.

A mesma filosofia se estendeu para o digital. Estar onde há fluxo passou a valer também para a jornada de quem pede sem sair de casa, sem que isso substituísse a loja física como canal principal. O raciocínio é o mesmo do ponto físico: ocupar cada momento em que o cliente pode escolher a marca, em vez de esperar que ele venha até um único endereço.

As lições para quem vai escolher onde abrir

A primeira lição é que fluxo alto não é sinônimo de bom ponto. O que importa é o fluxo qualificado, gente cujo momento de consumo combina com o que você vende. Um corredor lotado de pessoas apressadas pode valer menos que um espaço tranquilo onde o cliente tem tempo. Ler o momento é mais importante que contar cabeças.

A segunda é que o ponto não óbvio troca disputa por exigência. Você economiza na briga pelo espaço, mas paga em nível de serviço: quanto mais específico o canal, maior a régua de operação e mais decisivo o operador certo. Sem alguém comprometido com a gestão daquele ponto, o canal difícil vira problema em vez de vantagem.

A terceira é não escolher ponto apenas pelo aluguel. O espaço barato que não cria momento de consumo é caro no fim do mês, e o espaço mais caro que reúne o cliente certo pode ser o melhor negócio. A conta que importa não é o custo do metro quadrado isolado, é a relação entre esse custo e o fluxo qualificado que o ponto entrega.

O melhor ponto não é o mais cheio. É aquele onde o seu cliente já está e ninguém mais chegou.

No fim, escolher onde abrir é menos sobre encontrar o endereço mais concorrido e mais sobre enxergar o momento de consumo que ainda não foi ocupado. A rede que aprende a ler esses momentos cresce por onde os outros nem estão olhando, e chega ao ponto óbvio depois, por cima, com a marca já construída.

O melhor ponto não é o mais cheio, é aquele onde o seu cliente já está e você chegou primeiro. A plataforma de autoatendimento da Goomer sustenta cada modelo de operação, do shopping ao canal não óbvio, com pedido e pagamento desenhados para o ritmo de cada ponto. Se você está mapeando onde abrir, comece pela operação que aguenta o ponto que escolheu.

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